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terça-feira, 15 de maio de 2012

PLUVIA POST-ANGELUM


Hora pesada, de calafrios e espasmos – o crepúsculo inequívoco da vida que circula em horror de horas, minutos, segundos.
Como a hora do mundo.

Parece mais tarde. Esfriou.
Meu mundo se comprime em arrepios
imitadores das folhas castigadas pela chuva
que umedece as horas em que estou.
Ruas que parecem rios.

Estamos em plena chuva. Alarmados.
Um pouco abjeta a inação em nós.
Alguns sofrem, outros – em casa- MESMO SÓS,
encontram alívio por poderem não sair.

A chuva cai em nós – senhora.
Madame austera, matrona decidida.
Não uma senhora qualquer na vida.
Ao nos dizer se devemos ou não sair,
nada mais é a chuva do que a tal senhora – de si.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

A ETERNIDADE DE RIMBAUD


A eternidade - em si - é livre, visto que, como é sempre desejável e nunca concebível ou tangível, cada um de nós, por não a conceber, pode criá-la para si a modo próprio. É dizer, cada qual inventa ou pensa uma sua eternidade. Ou: cada qual crê em uma eternidade em particular. A eternidade de Rimbaud é nada mais do que dele, embora nos sirva como constatação do que, neste mundo, dela se pode contemplar. O mar misturado ao sol.  Eu poderia escrever que a mistura do mar e do sol é uma imagem impressionista da eternidade – o efeito em nossos olhos do que a eternidade tem de intangível – como se o eterno parecesse e não fosse. Porém, não creio caberem ismos na eternidade de Rimbaud (nem em Rimbaud, de modo geral). Por isso, digo que Rimbaud nos escreveu como sua eternidade aquilo que poderá ser a eternidade visual de todos: a constatação, por olhos humanos, daquilo que, para esses mesmos olhos, é inatingível. Eis que, pelo jovem mestre, podemos ver o que é o infinito.

PLANTEI UMA JAQUEIRA

                                                                                                                                                            Para Ester Abreu





Em horas de memória
de infância que não houve,
plantei uma jaqueira
porque me aprouve.

Sob a árvore que em magia
cresceu
pus um aviso
que – não o sabia –
era somente meu.
Dizia: “não deiteis sob ela”.
Via de mim querelas
que ao mundo quis.

Saí de lá, limpando as mãos
- feliz.

No entanto, mea culpa,
a árvore se isolou
sem pássaros ou passantes
 - estagnou-se em meu instante.

Foi o que vi. Espectro que criei.
(Agora o sei.)
Sob a jaqueira, em teimosia
nem relva crescia.
Por minha lei.

Louca! Impressões de ti à solta!
Libertei a jaqueira
Que – em magia –
fez-se maior.
Recebeu-me sob si.
Então, compreendi.

Deitada sob ela
não reservei fronteiras.
Ela se impregnou de vida.
Minha jaqueira – minha?
Mais vale ela, inteira.
Em vida – plena – e sozinha.
Mas à sua maneira.

Deitada sob ela
vi-lhe os enormes frutos.
Não senti medo.
Pois que cresciam por eles
- absolutos.

Namorei-a em olhar-lhe as jacas.
Que me caiam se o querem!
Não senti medo.
Que caiam ou não – a jaqueira tem seus segredos.
Que caiam as jacas sobre mim.
Não matam – creio.
No mais – que me não mataria?
O que não terá sido assado ou assim?
Senti por ali uma verdade.
Por jacas ou facas se morre.
O que me dá eternidade?

Deitei-me sob ela
em namoro.
Rindo, pude gritar:
İVenga el toro!

Com ou sem a jaqueira, o touro, o namoro – invenções -
o imprevisível e o implacável são eternos.
Mas a eternidade – o que ma pode dar?

Cada jaqueira estará em seu lugar
- ou bem onde a pões.

A quereres, ela sim ou não
- na relva ou no coração –
haverá.