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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

MACABRO

...e a morte?
A ilusão do couro curtido.
O pardacento que nos impressiona em memória de cavalheiros antigos.
O que habita em fotografias velhas.
Impressão viva é o que se nos representa a morte.
De sorte que não é senão a vida no correr da existência que sabemos.
No mais, figura o medo, em representações daquilo que em vida vemos
mortal.

A morte-pesadelo de bonecos de louça quebrados na face.
Túmulos remexidos. Terra. E nós, em vida, sorvendo o medo.
Esse, sim. Mais vivo – impossível.
O medo, rebento da vida, ordinário e triste,
leva-nos a caminhar à sombra do que a vida cria em morte
quando decerto há tão-somente em vida.

O medo é a casa esquecida e inventada
em paredes carcomidas e móveis do passado.
O cheiro é doce, entre xaropes, mofo e flor.
Há retratos em paredes – retratos antigos o suficiente
para garantir a morte de quem representam.
Eis um pedaço do que as agonias do medo – inventam.

A mortalha somente se talha em vida.
Dedos ágeis em vida a fazem e cosem
cada renda pela moção da imposta existência.
A morte em si não causaria medo
se a vida não lhe forçara tanto em falsos retratos.

O medo da morte
é a criação mais densa, mais ilustre (e certa)
do miserável, incompreensível – fato.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

MISÉRIA

A miséria me sabe em prender-se
nos aramados que disponho
pelos cantos de minhas horas perdidas.

A miséria, a miséria
é parte – fragmento vencido!
da vida.

A miséria me dói em olhos
que a observam crescer
como erva má que cultivo
sem saber.

Mas sei-te o haver, miséria.
Todavia, enquanto há o tudo de ti,
não me venço na debilidade
destas horas de contemplação – em agora que já vi,
para sempre – velhas!

Aí te fazes, miséria:
em hora minha sem estada de momento – sem lar.
Tu, miséria, és passado constante
que eu, covardemente, deixo passar.