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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

ANTES DA LÁGRIMA

Antes da lágrima, a saliva.
Perigosa, impregnada do ente.
Saliva, seiva pungente
de ânsias de si.

Sim, saliva.
Muito antes da lágrima.
A lágrima cantada mostra favas contadas.
(Saúda e se vai.)
Não. Antes a saliva.
Sabor de si que toca o outro.
Criva de um pedaços noutra boca.
Permanecendo por dentro – companheira do ai.

Saliva insana. Saliva louca!
Dizem, dizem sempre
que há como se morrer
pela boca.

A saliva silva em partes ocas
de um corpo.
Sibila salivando a saliva
eivada de vida sob a língua.

Saliva, que te enches de vida,
antes tu do que a lágrima.
Por ti, pode-se morrer à míngua.
Saliva, és o que arrebata.
Pelas vidas que carregas em ti

há o todo da vida que em sendo veneno
mata.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

OUTROS SINS

A vida há de ter
outros sins.
Há os nãos em mutirões,
como exércitos - precipitados sobre uma criança -,
que se impõem.
O dia cai em gotas de desânimo.
Preâmbulos preliminares de um esgotamento.
Canto tanto.
A saber: algo se esvai.

 Na hora da verdade, dela não se sabe.

O que tudo acolhe é o ralo.
Porém, porém.
Por isso mesmo
não me calo.

Seguro sem firmeza os vãos por onde a vida
me invade.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

CONCEDEI-ME PRAETERITUM


Fiz um muro. Sim, eu o fiz.
Quatro paredes óbvias e solenes - como devem ser.
Deu-me na ideia pôr-lhes somente cores que detesto.
Meu mundo, então, optou pela pedra por si só.
Eu –só! – o segui sem mais nem vez.
Hoje sou do que resta – a voz que não diz.
Mas as paredes!
Inventei-as e as deixei dispostas
que me encarcerassem tão bem!
Eu – só! – as inventei.
Minha voz falha nos cantos escuros em que passei a acreditar.
Fiz o montepio de barrar-me o olhar.
São elas! Mas eu inventei.
Mas ela!
Ela!
Não reparei, entretanto, que no
canto - esquerdo insuspeitado,
deixei uma brecha.
Por ela o vento canta por si só – ainda bem.
Mas ela! A brecha não se fecha.
Há a menina que fui.
Há ela, ela - a que ria.
A desamparada desparedada,
lá fora.
A dos momentos da alegria.
Sempre descalça, sempre da brecha,
três vezes, grita
na mesma hora:
- Vadia! Vadia! Vadia!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

TEMPORAL DAS MATINAS

Ora, aurora.
A hora há.

Em tuas confusões com o crepúsculo,
ela canta. Canta ininterruptamente
e somente
o que quer.
Daí, horrores. Olhares.
Cruzes, patamares.
Nada de paz.
Penso na hora ininterruptamente
pois a mim havendo querer ou não
ela se formará em milhares – e horas
serão.

Fatalmente. Ininterruptamente.
Não importam as horas discretas
com que te disfarças de cor-de-rosa
numa imitação do tênue.
A hora não é tênue.
Ela clama por si na percepção.
Aurora, são horas.
As horas são.
Não nego – não haverá possível não.
Ao menos o é enquanto há o durante.
A hora, aurora. Escândalo do instante.
Ora. Minuto infante, nascente constante.

Ora, aurora.
A hora há.