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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

O fantasma faz de si segredo. 
Assim, 
cultiva a tribulação acanhada 
no não-conhecer: o medo.

sábado, 29 de setembro de 2012

COMPROMISSO




COMO O MUNDO ESTÁ, NÃO SEI, ESTOU COM FEBRE, A LUA NÃO CHEGOU AINDA, SERÁ QUE VIRÁ, NÃO SEI SE TENHO PEDRAS, MEUS AMORES SÃO QUASE TODOS IMPOSSÍVEIS, DUVIDO DOS PRAZERES DA PAIXÃO, DÓI-ME TUDO O QUE PODE E O QUE NÃO PODE, DE ACORDO COM AQUELA DECÊNCIA, SABE? A TAL QUE NÃO ME PERTENCE, DE COR E SALTEADO, COMO A DAMA DO CABELO AZUL, SENHORA DE SI ETC, ETC. COMO NÃO SOU SENHORA DE MIM! AI! NÚMEROS UM E DOIS. DE-TES-TO AMPULHETAS E VIVA IONESCO, ELE ME FAZ LEMBRAR A VIDA QUE NÃO CONHEÇO, TODOS OS MEUS ELETRODOMÉSTICOS ESTÃO FUNCIONANDO, NÃO TENHO DESCULPA.
É HOJE.

terça-feira, 15 de maio de 2012

PLUVIA POST-ANGELUM


Hora pesada, de calafrios e espasmos – o crepúsculo inequívoco da vida que circula em horror de horas, minutos, segundos.
Como a hora do mundo.

Parece mais tarde. Esfriou.
Meu mundo se comprime em arrepios
imitadores das folhas castigadas pela chuva
que umedece as horas em que estou.
Ruas que parecem rios.

Estamos em plena chuva. Alarmados.
Um pouco abjeta a inação em nós.
Alguns sofrem, outros – em casa- MESMO SÓS,
encontram alívio por poderem não sair.

A chuva cai em nós – senhora.
Madame austera, matrona decidida.
Não uma senhora qualquer na vida.
Ao nos dizer se devemos ou não sair,
nada mais é a chuva do que a tal senhora – de si.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

A ETERNIDADE DE RIMBAUD


A eternidade - em si - é livre, visto que, como é sempre desejável e nunca concebível ou tangível, cada um de nós, por não a conceber, pode criá-la para si a modo próprio. É dizer, cada qual inventa ou pensa uma sua eternidade. Ou: cada qual crê em uma eternidade em particular. A eternidade de Rimbaud é nada mais do que dele, embora nos sirva como constatação do que, neste mundo, dela se pode contemplar. O mar misturado ao sol.  Eu poderia escrever que a mistura do mar e do sol é uma imagem impressionista da eternidade – o efeito em nossos olhos do que a eternidade tem de intangível – como se o eterno parecesse e não fosse. Porém, não creio caberem ismos na eternidade de Rimbaud (nem em Rimbaud, de modo geral). Por isso, digo que Rimbaud nos escreveu como sua eternidade aquilo que poderá ser a eternidade visual de todos: a constatação, por olhos humanos, daquilo que, para esses mesmos olhos, é inatingível. Eis que, pelo jovem mestre, podemos ver o que é o infinito.

PLANTEI UMA JAQUEIRA

                                                                                                                                                            Para Ester Abreu





Em horas de memória
de infância que não houve,
plantei uma jaqueira
porque me aprouve.

Sob a árvore que em magia
cresceu
pus um aviso
que – não o sabia –
era somente meu.
Dizia: “não deiteis sob ela”.
Via de mim querelas
que ao mundo quis.

Saí de lá, limpando as mãos
- feliz.

No entanto, mea culpa,
a árvore se isolou
sem pássaros ou passantes
 - estagnou-se em meu instante.

Foi o que vi. Espectro que criei.
(Agora o sei.)
Sob a jaqueira, em teimosia
nem relva crescia.
Por minha lei.

Louca! Impressões de ti à solta!
Libertei a jaqueira
Que – em magia –
fez-se maior.
Recebeu-me sob si.
Então, compreendi.

Deitada sob ela
não reservei fronteiras.
Ela se impregnou de vida.
Minha jaqueira – minha?
Mais vale ela, inteira.
Em vida – plena – e sozinha.
Mas à sua maneira.

Deitada sob ela
vi-lhe os enormes frutos.
Não senti medo.
Pois que cresciam por eles
- absolutos.

Namorei-a em olhar-lhe as jacas.
Que me caiam se o querem!
Não senti medo.
Que caiam ou não – a jaqueira tem seus segredos.
Que caiam as jacas sobre mim.
Não matam – creio.
No mais – que me não mataria?
O que não terá sido assado ou assim?
Senti por ali uma verdade.
Por jacas ou facas se morre.
O que me dá eternidade?

Deitei-me sob ela
em namoro.
Rindo, pude gritar:
İVenga el toro!

Com ou sem a jaqueira, o touro, o namoro – invenções -
o imprevisível e o implacável são eternos.
Mas a eternidade – o que ma pode dar?

Cada jaqueira estará em seu lugar
- ou bem onde a pões.

A quereres, ela sim ou não
- na relva ou no coração –
haverá.

quinta-feira, 26 de abril de 2012


SURSUM CORDA PARA ELSA DALCIN


Mis manitos de bebe
buscan a mi abuela
en el cielo – lo creen.

Están mis manitos de bebe
en mi corazón ahora.
Y siempre.

Mis manos de mujer
recogen lágrimas
que se van
hacia abajo.

Pero aquí están
en mí
las manitos de bebe que tengo
buscando a mi abuelita.
Y así llevan a mi corazón
hacia arriba.

terça-feira, 17 de abril de 2012

RASGO DEVIDO

Aqui estou
no silêncio de cio não-confesso.
Perdei-me, ó perdulários.
Rendo-me às correntes
que pesarem o suficiente.
As horas passadas, dei-as à vida.
Cada passo dado é meu e nada.
Vida vadia endividada.
Evitai cegos esta estrada.

domingo, 15 de abril de 2012

ALMAS, BOAS ALMAS

Almas, boas almas
que chegastes ao Céu:
procurai-lhe o fundo.
Ouvi, eu vos peço, de lá os suspiros
que são tantos
porque o poeta não mente.
Ao menos aquele poeta não mente.
Ouvi de lá os suspiros
os suspiros
os suspiros
- Tantos e ao infinito!
Porém, tende cuidado
em não pisar os corações
que perambulam por este mundo – contrito!
Porque não achareis um sequer
em que não haja
- Desespero!
O poeta não mente.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

EU, A NOVA ORDINÁRIA MUNDIAL.



Mediano mundano. Tétrica teoria. Feérica farofa.
Outrossim. Fábulas, a mim.
Coleção de aforismos reles; não o reles de hoje, inominável incompreensível aglomerado plástico. Antes o reles anterior àquilo tudo que já houve de ser de celuloide. O reles de prontidão em cantos bem mais antigos. Aparador com cheiro de alfazema barata, sobre o qual se veem bocetas de porcelana cheias de joias de ouro baixo – ah, um lenço. A conjunção desordenada dos mistérios culturais. A vagabundíssima nostalgia. Loção em seda azul-marinho. Tradição bolor labor. Outrora de riso em prosa confeitada em cor-de-rosa. A coisa que virou cousa tão-somente porque tal me aprouve. No entanto – à lousa! À lousa!

Não se morre de amor, mas de amores – porque o nome verdadeiro do amor é legião.
O que há de mais ordinário no mundo senão a ordem?
Não se pode pensar outra cousa fora o amor, pois se bem me desligo o coração, é certo que morro.
O mundo se nos chega somente de fora; daí esquecermo-nos a espreitá-lo.
É exatamente contra ti, na medida do peito, que deves trazer sempre o que deveras amas.
Não te vanglories antes da constatação de não teres tropeçado no cadáver do inimigo.
O sabão e o sermão já foram irmãos.
O mundo não te pertence, tampouco tu pertences a ele.
Se o mundo te pedir que sejas decente, responde-lhe que preferes ser somente.
Mais-valia e pouca monta, a natureza não conta.
Reforma o mal, terás a moral.
Tudo poderás ter na vida, menos a morte.
Carmim ou encarnado, isso é passado.
Não tenho vaidades fora as que crio para mim mesma. Sou mulher, não sou escrava cultural.
Admito que sejas na vida o que quiseres, exceto ignorante. Se o fores, porém, não exponhas opiniões, pois não as terás.
A morte é a impressão de perda e de impotência que temos diante do outro. Diante de nós mesmos, a morte é cousa nenhuma.

terça-feira, 20 de março de 2012

RISO

Chapéu bicorne, estrela falante.
Isto agora durante.
Quiçá memória?
De elefante.
Aqui agora paraíso
em que me perco em lágrima e riso.
Dinheiro é delírio.
Farsa, farsante.

Rebenta a lira pula idílio.
Morte às rãs, mas e se chove!
Que dó me dá a ciência do estribilho.
Duvido do que me move.

Ouço as estrelas.
Elas me dizem o que espero.
Dizem delas que são, sem mais, só elas.
Espreito-me na carne que sente.
Altas, distantes – parecem belas.
Ah, como as estrelas mentem!

Estrelas fingem contar segredos.
Dizem que devem cair sobre mim.
Uma a uma, assim e assim.
Que caiam – riso. Não tenho medo.

(Temerei o que é vosso ofício?)
Que seja tarde, nunca ou cedo.
Não pude ver o início
como posso temer o fim?

terça-feira, 13 de março de 2012

MINUTO DE LUTO

Não sei silêncio.
Cri como creste
que o houvera sabido.

Mas que silêncio é este?
Impressão de ouvido.
Não me pertence o devaneio da solene hora triste
que imita o silêncio diante de morte ausente
e que há porquanto o silêncio não existe.

sábado, 10 de março de 2012

BOM DIA

Amigo!
Amor!
Irmão!
Chefe!
Capataz!
Quanto tempo faz?

Bom dia.
Querido!
Flor!
Camarada!
Sabe para onde vai esta estrada?

Bom dia.
Por ora.
Senhor!
Senhora!
Bom dia.

É sabido que na vida todo o mundo
entra e sai.
Bom dia.
João!
Maria!
Como vai?

segunda-feira, 5 de março de 2012

DA NOITE

Noite. Digna de imitar nossa crença no silêncio e na compaixão.
Mistério.
Noite. A quem aprouver, veste-se de dama de companhia
da solidão.

Noite, noite não.
Parece a noite a estada na hora às avessas.
A quem quiser, cala-se a noite em confiança
a dores e promessas.

Requisita-se na noite a melancolia
e assim parece que a noite nos dá
antigos olhares, encontros e alegrias.

Noite. Escrava do pensamento
daquele que lamenta a condição
de estar só.

Como o queremos
a noite nos diz.
Sabe-nos ela a conta infeliz.

Mas a noite de tão contemplada em
misérias nossas
nem ao menos nos diz
que por nós somente choramos,
ainda que bem o façamos.

A noite se faz por nós
em legítima hora de sermos pó
e nos lembramos de momentos
que nada têm com ela.

A noite, a noite não é donzela
que se prepara para cada um que pena
ou que se ri.

A noite, por si, por ela,
estará sempre aqui ou ali.

Não me pertencem as ilusões de nuvens discretas da noite.
No minuto forte ou enfermiço – sei:
ela nada tem com isso.

Mas noite, noite. Não te amo.
Porém, vê o quanto choro!
Lembra-me de que estou só.
E nesta hora em que me perco
no passado
só quero dizer-te que perdi
minha avó.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

MACABRO

...e a morte?
A ilusão do couro curtido.
O pardacento que nos impressiona em memória de cavalheiros antigos.
O que habita em fotografias velhas.
Impressão viva é o que se nos representa a morte.
De sorte que não é senão a vida no correr da existência que sabemos.
No mais, figura o medo, em representações daquilo que em vida vemos
mortal.

A morte-pesadelo de bonecos de louça quebrados na face.
Túmulos remexidos. Terra. E nós, em vida, sorvendo o medo.
Esse, sim. Mais vivo – impossível.
O medo, rebento da vida, ordinário e triste,
leva-nos a caminhar à sombra do que a vida cria em morte
quando decerto há tão-somente em vida.

O medo é a casa esquecida e inventada
em paredes carcomidas e móveis do passado.
O cheiro é doce, entre xaropes, mofo e flor.
Há retratos em paredes – retratos antigos o suficiente
para garantir a morte de quem representam.
Eis um pedaço do que as agonias do medo – inventam.

A mortalha somente se talha em vida.
Dedos ágeis em vida a fazem e cosem
cada renda pela moção da imposta existência.
A morte em si não causaria medo
se a vida não lhe forçara tanto em falsos retratos.

O medo da morte
é a criação mais densa, mais ilustre (e certa)
do miserável, incompreensível – fato.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

MISÉRIA

A miséria me sabe em prender-se
nos aramados que disponho
pelos cantos de minhas horas perdidas.

A miséria, a miséria
é parte – fragmento vencido!
da vida.

A miséria me dói em olhos
que a observam crescer
como erva má que cultivo
sem saber.

Mas sei-te o haver, miséria.
Todavia, enquanto há o tudo de ti,
não me venço na debilidade
destas horas de contemplação – em agora que já vi,
para sempre – velhas!

Aí te fazes, miséria:
em hora minha sem estada de momento – sem lar.
Tu, miséria, és passado constante
que eu, covardemente, deixo passar.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

ANTES DA LÁGRIMA

Antes da lágrima, a saliva.
Perigosa, impregnada do ente.
Saliva, seiva pungente
de ânsias de si.

Sim, saliva.
Muito antes da lágrima.
A lágrima cantada mostra favas contadas.
(Saúda e se vai.)
Não. Antes a saliva.
Sabor de si que toca o outro.
Criva de um pedaços noutra boca.
Permanecendo por dentro – companheira do ai.

Saliva insana. Saliva louca!
Dizem, dizem sempre
que há como se morrer
pela boca.

A saliva silva em partes ocas
de um corpo.
Sibila salivando a saliva
eivada de vida sob a língua.

Saliva, que te enches de vida,
antes tu do que a lágrima.
Por ti, pode-se morrer à míngua.
Saliva, és o que arrebata.
Pelas vidas que carregas em ti

há o todo da vida que em sendo veneno
mata.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

OUTROS SINS

A vida há de ter
outros sins.
Há os nãos em mutirões,
como exércitos - precipitados sobre uma criança -,
que se impõem.
O dia cai em gotas de desânimo.
Preâmbulos preliminares de um esgotamento.
Canto tanto.
A saber: algo se esvai.

 Na hora da verdade, dela não se sabe.

O que tudo acolhe é o ralo.
Porém, porém.
Por isso mesmo
não me calo.

Seguro sem firmeza os vãos por onde a vida
me invade.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

CONCEDEI-ME PRAETERITUM


Fiz um muro. Sim, eu o fiz.
Quatro paredes óbvias e solenes - como devem ser.
Deu-me na ideia pôr-lhes somente cores que detesto.
Meu mundo, então, optou pela pedra por si só.
Eu –só! – o segui sem mais nem vez.
Hoje sou do que resta – a voz que não diz.
Mas as paredes!
Inventei-as e as deixei dispostas
que me encarcerassem tão bem!
Eu – só! – as inventei.
Minha voz falha nos cantos escuros em que passei a acreditar.
Fiz o montepio de barrar-me o olhar.
São elas! Mas eu inventei.
Mas ela!
Ela!
Não reparei, entretanto, que no
canto - esquerdo insuspeitado,
deixei uma brecha.
Por ela o vento canta por si só – ainda bem.
Mas ela! A brecha não se fecha.
Há a menina que fui.
Há ela, ela - a que ria.
A desamparada desparedada,
lá fora.
A dos momentos da alegria.
Sempre descalça, sempre da brecha,
três vezes, grita
na mesma hora:
- Vadia! Vadia! Vadia!

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

TEMPORAL DAS MATINAS

Ora, aurora.
A hora há.

Em tuas confusões com o crepúsculo,
ela canta. Canta ininterruptamente
e somente
o que quer.
Daí, horrores. Olhares.
Cruzes, patamares.
Nada de paz.
Penso na hora ininterruptamente
pois a mim havendo querer ou não
ela se formará em milhares – e horas
serão.

Fatalmente. Ininterruptamente.
Não importam as horas discretas
com que te disfarças de cor-de-rosa
numa imitação do tênue.
A hora não é tênue.
Ela clama por si na percepção.
Aurora, são horas.
As horas são.
Não nego – não haverá possível não.
Ao menos o é enquanto há o durante.
A hora, aurora. Escândalo do instante.
Ora. Minuto infante, nascente constante.

Ora, aurora.
A hora há.