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segunda-feira, 28 de novembro de 2011

RESSURREIÇÃO

Como entorpecida por curare,
via e sentia
que
dentro de mim, em ares,
em cada nó do que me penso,
a coisa acontecia.

Mas danada, perdida
em eternidade contida,
contava horas e dias.
De não fazer. E não fazia.

Porém, a carne ondula.
O saber-me ou constatar-me
aqui exige. Assim, agora.
Fazer é vício – gula.
Nova carne. Dada a si.
Agora, ou antes. Mas
aqui.

Angústia que morosamente
em mim – mora.
Sim. Via e sentia.
Embora calada,
não terei sido
morada vazia.

Sofrido nada.
Terei acompanhado entranhas
conhecidas e estranhas.
O de dentro – creio – não perdi.
Velha ou nova a morada – é inesgotável
por não-acabada.

Sim.
Eis-me aqui.

sábado, 26 de novembro de 2011

AS ASAS DOS PORCOS



In loving memory of Charles Dodgson.
 

As asas dos porcos nascem – e se proliferam
no mundo em que se juntam baldes chutados.
Os porcos têm suas asas no si-mesmo de quem as quer.
Se – os porcos as têm – não. Na rigidez do olho.
No entanto, na amplitude infinita dos olhares,
eis que os porcos voam. Para os loucos?
Muito é tudo e tudo é pouco.
Novamente o espaço do pensar – na loucura
é exíguo – assaz.
E eis que vejo em porcos – asas demais!

Livre é o que vê os porcos em possibilidades mais.

Os porcos com asas não nascem. Criam-se.
Nascem – isso sim! – as asas somente.
Mas lá no paraíso perdido da mente.
A criação junta os pedaços. Porcos, porcos no espaço!
Porcos limpos, mentes sujas.
Baldes emborcados para sempre.
Lodo que se cria para não ser visto.
Mas ao lado do eterno emborco
nascem as asas de cada porco.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

KITSCH – DO DRAGÃO ENCONTRADO


A fúria  - às vezes -  ousa-me dos pés à cabeça.
A abominação pelo iníquo vem aos borbotões,
como o ódio que a humanidade é capaz de exalar
quando – e a cada sempre – não cuida de si.

Miséria! Abomino miséria não-física, dote dos incapazes,
capazes de não-conter lágrimas efetivas por aquilo que
é efetivamente miséria, e miséria física.
Silvando sai de mim o som imobilizante
da fera potente – que me saiam da frente!

Incapazes algozes da humanidade! Por quê?
O lastro medíocre é firme, duro, consiste em
dolo fossilizado de amargores.

Impassível pusilânime, maldito inimigo das dores alheias,
sofre. O mundo, este – aqui – há de esquecer-te.
Mesquinho submundo da vaidade por poucas palavras
que parecem algo que o valha, sem valer.
Que tua vida seja o retrato da miséria nua.
Arrogante, sai! Que tua cama seja teu mundo,
e que seja somente tua!

A fúria é de rasgar flores de papelão,
composição de dourados irascíveis e insuportáveis
quando se vão tornando cor-de-rosa em demasia.
Ofego. O grito se irradia. Vence o adiamento.
Não tento. Fúria! Grito. Ah, MALDITO!

Reconhecer-te! Desgosto que não escrevo,
não sei. No meio do entulho das mágoas que varam
nossa história – de sempre- , debaixo de pedregulhos
vestidos de limo e lama, de prostíbulos, de camas, de
empoeirados vazios,  foi – lá – que te encontrei.

Sim, fúria. A que haveria de ti a companhia,
mas não! Margem perdida, estrume, pisadelas.
Pontes, passos, erros – eles e elas.
Mundano e despido de outrem – CÃO!

Estarás só. O amargo há para que seja esquecido.
Diletante de um mundo vencido, sobe as escadas
enquanto podes.
Um dia – cairás.

E, depois de haver perdido esta crença no eterno,
lá na rima estarás.

Atira pedras na pobreza, ri da cara do altruísmo!

És tu! Inimigo, eis que te vi!
Caridade – parece-te injusta, pois não a compreendes.
Ao mundo, de que escarneces, assim é que te rendes.
- Ai de ti!
O mundo é o tal que te esquecerá.
Recolhe bem em teus fundos teus risos.
Porque, no mais – após tudo,
as pedras – que atiraste -  colherás.

Há de ficar, no eterno – o riso.
O riso profundo.
Não o teu.
O do mundo.
- E o meu.

DEIXA TUDO AQUI – UM DEVANEIO DE SAUDADE


Cheiro de doce, de livro infantil. Saudade! O de repente que nos toma nos braços para nos contar de partes de nós que já se foram.

A saudade, quando em reconhecimento súbito, leva-nos a choro convulsivo, pois, em estado supremo, tem por obrigação ser incontrolável.

Aparentada das agonias, eis o que ela é.

Ou melhor: ela é agonia em suave agitação pela certeza do entrever o que é vão.
A saudade compete eternamente com a novidade: a vida nos regala com leite, sal, sangue e mel a cada segundo. Daí, se há a fatalidade de dar-se conta disso, há o ranger dos dentes, incomodados com uma estada absurda em si – o que não se reabilita, o que em si habita. A saudade me parece o abandono aqui. Aqui é o lugar absurdo, incrível. Antes crer no alhures. A hora é catimbó macabro. Ou, antes. A hora, quando é esta, comprime-se, arrepia-se, desespera-se quando se reconhece. Ah, se assim não fosse! Estada na companhia do minuto. Hora bendita, hora maldita, hora esta. Funesta por vislumbrada. Saudade da outra hora.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

QUANTO AO FUTURO


- Como tem passado?
- Ora, eu o tenho como você.
- Não compreendo.
- Tenho passado. E, do mesmo modo que todos em vida têm passado, eis no passado o que tenho; aliás, acumulo passado como você e como todos.
- Acumula... E quanto ao futuro?
- Não, esse não o tenho.
- Pensa já na morte?
- Penso nela desde sempre, mas não por isso. Aliás, o futuro é quase como a morte: parece-se com ela em seu estado de não-matéria, de inexistência, de não-experiência, mas difere-se dela por ser relativo, pois guarda a promessa do haver, ainda que não haja.
- Relativo?
- Relativo. Neste mundo, só posso atribuir à morte o absoluto. No mais, tudo é relativo. O passado, principalmente.
- Por que principalmente?
- Porque creio ter muito passado, muito mais do que gostaria. Ao mesmo tempo, creio ter pouco passado, muito menos do que gostaria. Assim como você.
- Fala do tempo?
- Falo dos gestos no tempo. E ambos são relativos. Os gestos. O tempo.
- Compreendo. Mas, e os planos, os projetos... Se o futuro não há?
- Não em absoluto, mas o há em relativo, na espera.
- Não sei se compreendo.
- O futuro, como não é, mas talvez será (sic), há em nossa imaginação de poder acrescentar algo ao acúmulo do passado. O poder e a imaginação, essa tal potência da matéria que cria a si mesma: isso há, mas é relativo. Continuo.  Aumentemos, pois, em vivendo, a constituição do relativo. Mas tudo é espera – a depender do poder de concepção, e somos distintos na concepção. Como você disse: o que tenho é passado. E só posso dizer que o tenho como você – na relatividade que mencionei. No mais, não sei como o tenho, pois não há que planejar: isso torna meu modo de ter passado ainda mais igual ao seu. Como temos passado, ouso crer que do mesmo modo, mas o que temos passado é cada qual em seu universo de relatividade e dependência do próprio poder de concepção. A dúvida é mais certa do que a certeza. E a certeza, por mais certa que esteja na crença em si mesma, jamais será absoluta. Só a morte o é, você sabe.
- Como pode ter certeza disso?
- Tenho-a, mas não em absoluto, pois a certeza é em vida, com a potência conceptiva em ação. Quanto à morte, aí futuro certo – mas desconhecido. O que é para sempre desconhecido e não cabe na relatividade de nossas captações do mundo é o que não cabe no mundo: a não-matéria, a não-existência. A morte é o oposto de tudo o que podemos conceber – mesmo a própria relatividade. Daí, para sempre desconhecida – e absoluta. E a tememos por isso mesmo. O poder de concepção há de temer o que não alcança em absoluto. Sim, em todos os sentidos. Houvesse falta no sentido, e teríamos o absoluto.
- Mas então teremos todos o absoluto.
- Isso é futuro, e, quanto ao futuro – é relativo, você sabe. Dizem que a morte é a única certeza que há na vida. Equívoco duplo, pois a morte não é uma certeza, já que a certeza é concepção relativa – no mais, é certo que a morte não há na vida. Portanto, não tenho certeza de receber o absoluto um dia, mas ainda que a tivesse, seria certeza relativa. Aliás, seria ela relativa na mesma medida da certeza que você me apresentou na última afirmação. E essa afirmação é passado. Acumulou-se e se acumula em você. Em nós. Tenho passado bem como você. Em todos os sentidos. Fora do todo, nihil obstat, expressão latina carregada de poder de eternidade. Futuro relativo, morte absoluta. Eternamente: nihil obstat. Em todos os sentidos.
- Compreendo. Obrigado pelo acúmulo. Matéria é, pó é certeza.
- Relativamente de certo. Sim.
- Nihil obstat.