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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

A TREVADEIRA OUTRA VEZ

TREVA DA SAUDADE



Sei o que é saudade.
É a precisão do vício.
É a falta conhecida,
apresentada,
aparentada,
que pode estar na sala,
sentada. Exata.
É a falta que cumprimenta.
É a falta científica,
que tem fundamentos.
A ausência com antecedentes.
Tem parentes,
pretendentes,
dentes.

Vontade de morder com força.

- Que esta saudade se contorça!
...

A saudade tem história (eu, histeria).
Tem História.
Quero me afogar na arena.
Ter ideias pequenas.
Re-esquecer minha cena.
Fazer minha cena.
Quero
ser irmã de Madalena.
Perder o dia.
O mês.
O ano.
...quero um porre de Adriano!

Quero perder a memória,
ser expulsa da escória,
insultar minha oratória.

Quero acariciar os ratos,
enlouquecer de fato.
Comer mato.

Quero consumo estragado,
quero ficar de lado,
quero cuspir de lado!

...
Diante da falta de tudo,
eu me cubro de temores.
preparo-me,
despreparo-me,
porque posso,
porque tempo não falta,
Para o mais atroz dos encontros...

É a hora. Ali está,
impassível e cínica,
a minha própria presença.

E eu me vejo assim.
Sofro quando me vejo.
Choro, choro e me desejo.

- Sinto falta de mim.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

DISCURSO SOBRE A TERNURA



A ternura, a candura, o carinho (e toda a família) receberam um sobrenome, lugar-comum da intelectualidade brasileira que anda farejando resquícios de um desespero de opinião característico dos extintos anos 70: PIEGUICE. Injustiça. Que não se perca o entusiasmo por aquilo que soa suave; parece que, nesta terra, há que se preferir somente o soar impactante. Não falo somente do que é torpe, mas dos ardores da amargura em geral; não é preciso sujeira para o impacto, mesmo que o impacto sujo soe bem (a saber como é criado). A questão é que defendo – neste momento - a ternura, o delicado. A amenidade. Afinal, onde está, ou o que é o belo? Manuel Bandeira nos ensinou que a beleza não está na pureza, nem na impureza, mas em nós, como conceito. Daí que tiramos de nós o sofrimento, a alegria, a saudade. Por esse caminho, a beleza está na virtude e na vileza, desde que sejam autênticas.  Há dias em que nos debatemos na angústia da perversidade que se nos insiste: daí, saírem trevas verdadeiras de quem pode com elas.  Porém, há dias de lembranças, da avó, do avô, dos amigos que se foram, da infância que –inexoravelmente- não há. E há a saudade. A saudade é a dimensão mais pura da ternura; um coração quer ser vulgar, mas não o pode diante dela. Nem todo dia é dia. A melancolia, apesar do nome, nem sempre é tenebrae. Ainda que diante de tribulações ontológicas das mais catastróficas, havemos, sim, de dar um momento para a contemplação do que é belo na ternura. Ainda que não o pretendamos fazer. Nossos gestos, diante do que as horas da vida exigem, são ineficazes se contrários a elas.

A inversão dos pólos radicais da sistemática política

Como professor de Ciência Política e de Direito Público (Constitucional e Administrativo) escrevo essas primeiras linhas em tom de desabafo... Esse opúsculo trata-se de uma pequena reflexão sobre um assunto vasto: a cidadania.

Esse artigo teve por provocação uma letra de música chamada "Um novo amanhecer" de Oleg Gazmonov. Transcrevo abaixo as duas primeiras estrofes.

А как мы сможем победить, если нас легко купить
Como podemos vencer se somos tão fáceis de comprar
Как мы сможем побеждать, если нас легко продать
Como podemos vencer se nos vendemos tão fácil

Iniciando... A cidadania é a pedra angular que legitima a ordem democrática, isto porque a democracia investe a cada um de nós o título de cidadão. A grande questão da equação que estrutura essa outorga não é apenas em conhecer seus Direitos, mas de exercê-lo como um Dever.

Tentando explicar em poucas linhas algo que está sendo objeto de um artigo científico (intitulado previamente de (A inversão dos pólos radicais da sistemática política). O compromisso cívico não deve ser avaliado como simplesmente Direito, pois Direito é faculdade, ou seja, é um comportamento que nos é permitido escolher exercê-lo ou não. Na minha visão o civismo deve ser considerado um Dever, pois é imperativo que nós venhamos a assumir nossas responsabilidades de cidadão. Nós somos co-responsáveis pelo cenário político brasileiro, nossa omissão e passividade tendem apenas a reforçarem as imposturas cometidas pelos nossos representantes eleitos, os atos censuráveis ainda que permaneçam em sua tipificação jurídica como ilícitos, é erguido toda uma rede de privilégios que assegura que os infratores-políticos venham a cometê-las reiteradamente. A triste constatação é que não há no Brasil um tribunal que possa julgar, condenar e fazer cumprir a sentença para os Sarneis, José Dirceus, e tantos outros.

Outro aspecto que aflora na equação tradicional que remete a idéia do compromisso cívico como Direito é a gratuidade do Direito. Infelizmente o ser humano só valoriza aquilo que veio a conquistar com suor ou sangue - um velho ditado popular já ensina "Aquilo que vem fácil, vai fácil". Nossos Direitos não foram objeto de conquista, foram benefícios vindos de cima para baixo. Essa situação me faz lembrar as manobras político-sociais implementadas por Bismarck, primeiro ministro da Alemanha imperial do período da unificação, pois o estadista antecipava direitos sociais e trabalhistas a fim de enfraquecer os sindicatos e cooptar assim o proletário. Retornando para o Brasil, não há ideologia nos partidos, e muito menos fidelidade partidária, o que há é uma busca sem trégua para conquistar votos, e com tais votos conseguir o poder. Todavia uma vez investidos da autoridade, estes não implementam um plano de governo, ou um projeto de Estado, toda a relação está pautada na consolidação do poder, antevendo as próximas eleições. Caso não tenham a possibilidade de eleger um sucessor as ações governamentais são postas a baixo, para que o próximo governante, seja no nível municipal, estadual ou federal, não colha os frutos do antecessor-opositor.

Entre as práticas sociais mais comuns está o cargo comissionado. Nossa constituição estabelece em seu art. 37, inciso II que "a investidura em cargo ou emprego público depende de aprovação prévia em concurso público de provas ou de provas e títulos, de acordo com a natureza e a complexidade do cargo ou emprego, na forma prevista em lei, ressalvadas as nomeações para cargo em comissão declarado em lei de livre nomeação e exoneração". De forma conjugada deve-se examinar o inciso V do mesmo artigo, quando salienta que as funções de confiança, exercidas exclusivamente por servidores ocupantes de cargo efetivo, e os cargos em comissão, a serem preenchidos por servidores de carreira nos casos, condições e percentuais mínimos previstos em lei, destinam-se apenas às atribuições de direção, chefia e assessoramento.

A partir de uma interpretação teleológica e lógica podemos entender que a regra é o ingresso na Administração Pública mediante concurso público, a exceção é para alguns cargos de livre nomeação. Essa interpretação segue por linha de raciocínio que no exercício de suas competências, os poderes públicos devem sempre observar as regras e princípios estabelecidos na constituição da república, tendo em vista a supremacia formal que a carta magna possui no ordenamento jurídico brasileiro e da gestão pública.

Todavia, caso verificarmos a realidade é um tanto diferente, os cargos comissionados são travestidos de legalidade, mesmo que pese a sua afronta constitucional. Haja visto que os funcionários em comissão deveriam representar uma minoria no corpo administrativo, mas na realidade eles representam uma parcela significativa. Caso um interessado em política pública desenvolva um detalhado escrutínio dos funcionários dos municípios pequenos constatará uma endêmica presença de servidores comissionados exercendo atividades sem qualquer relação com gerência, direção e assessoramento. O cargo comissionado, portanto, é uma mercadoria para obter votos e costurar alianças.

Essa prática social, baseada na injustiça, na parcialidade e na pessoalidade, envia a mensagem errada às jovens gerações que se convencem que violar normas e pagar ilegalmente são maneiras aceitáveis de avançar nas carreiras, que esforço pessoal e mérito não contam, e que o sucesso sõ acontece com favoritismo, manipulação e suborno.

O ponto focal para a implementação dessa desarticulação política da população brasileira está na ausência de patriotismo... Por ironia, o patriotismo - que é uma qualidade intrínseca e inseparável da cidadania - foi tarjado de negativo e condenado ao ostracismo. A intelectualidade nega seu valor, chamando-o de alienação ideológica para obscurecer a realidade social. Seus argumentos procedem caso analisarmos o episódio da história recente brasileira - a Ditatura Militar. O patriotismo ainda que pese sua invenção burguesa, igualmente foi utilizado pelos regimes de esquerda. Assim, vale crer que o patriotismo não tem fidelidade com a ordem capitalista, ele é uma peça necessária para cultivar o compromisso cívico.


Para concluir, peço que dediquem 4 minutos para ouvir a musica "Um novo amanhecer de Oleg Gazmanov. Abaixo está o link direto:












segunda-feira, 24 de outubro de 2011

HAC HORA



Belo mundo,
tu és a vida , e estou fora.
 - Ai, Pandora!

Espalho-me nas margens
e não encontro o fundo.
 - Ai, mundo!

A força dos deveres
em mim cala e me ignora.
- Ai, Pandora!

Fechei-me, e eis o caso.
Vai-se-me eu a cada segundo.
- Ai, mundo!

A nada presto, e pouco valho!
Pois o de mim é o que chora.
- Ai, Pandora!

De mim só dizem,
que em minhas horas me confundo.
- Ai, mundo!

Diz-que-diz-que...
“Cala-te, boca!” – de uma senhora.
- Ai, Pandora!

A TREVADEIRA (ainda)


TREVA CIRCUNSTANCIAL

Este é um dia
que se parece com uma noite.

As ruas estão amuadas
e cheias de pouca-gente e má-vontade
que andam lado a lado
como em passeata
contra a possibilidade da alegria.
(Cada passante parece uma nódoa em mim.)

Num dia desses, nem Roma, nem rima.
(Ó Luís, nem aroma!)
Só lama.
Lama inodora, insípida e incolor
como a água que não há.

Mas este dia me dá
a certeza da falta (que há).

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A TREVADEIRA (mais)


TREVA PUDICA

O medo da palavra é óbvio.
O chulo, o ralo, o fraco - atormentam.
No pavor da torpeza é que me provo.

Nada faço, nada escrevo!
Mau pudor, por que a ti me impeles?
Mas ouço a ordem da treva:
- Sê reles!

terça-feira, 18 de outubro de 2011

A TREVADEIRA (cont.)

TREVA DA VIDA ZEFIRINA OU DA VIRAÇÃO


Mais tarde...
Bem mais tarde...
Haverá as crises do louco em transe contínuo
e que continuem
na insistência do delírio, e delírio é pouco
para o louco.

Continue falso é a ordem do dia.
Na verdade, o momento é nada,
pois é brisa dissimulada em movimento que imita o vazio.

Aliás, a brisa é dissimulada.
Sempre, sempre.
Parece nada.

(Grande atrevimento da brisa esse.)

Pensa que me engana,
pensa que não vejo
que o tempo passa?
Bobagem, a brisa não pensa.
(Penso eu, loquaz na exiguidade física da brisa.)
...
Ah, mas como te pareces com o nada!
O mais tarde sempre chegará
mais cedo ou mais tarde.
                                                           
Pelas minhas cãs!
Brisa, eis que me enganas!
Traiçoeira, que não deixas esta pusilânime
amar a tempestade.
A tempestade é severa em seu passar:
avisa que é tarde.

É tarde, sempre será tarde,
ainda que cada vez mais cedo.

Brisa, eis que me enganas!
Brisa perjura, embuçada.
Ah, mas como te pareces com o nada!

E que minhas horas viajem, viajem
vestidas de aragem.

Brisa, que me mostras, por diáfana que és,
o quanto os momentos são sujos,
impuros de impregnados -  tanta matéria!

Brisa, és séria.
Eu, louca, penso que me enganas.

Sei que passas, suspeito de ti a passagem.
Enganaste-me, aragem?
 Eu, louca, penso que me enganas.
Enganas-me no mundo que penso meu.
(Só neste, liberto de mim os outros.)

Brisa, és cruel!
Eu, louca, penso que me enganas!
Entretanto, vives de mostrar-me
que quem me engana sou eu.

Oh! É tarde.
Adeus.



...

(Terei também visto os céus?
És passado como a brisa...
...vivo de brisa, Manuel!)





TREVA MELANCÓLICA

Por quem sou!
No mundo de outrem, mulher direita!
O inferno do mundo me impede
de usar a gravata desfeita
de Rimbaud.

A estreiteza social,
creiam-me, faz-me mal.

Nos andares da vida, a profissão.
O prestar contas. A multidão.
Ão! Que desespero de rima!
Oh, não! Que me parece apoetar-me
no tal mundo que me ensina
a pensar-me mulher, menina...
...e a andar
na escuridão.