Ocorreu um erro neste gadget

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

POR MIM

Por mim – todos por si.
Cria-se lugar de outro em imaginar-se.
Cada qual se transfigura e fala por si
a partir doutro que ordena.
- Que vida pequena!

Por mim – por mim
estariam aqui – reunidas fundidas
como uma só relíquia
todas as euforias
que tive
na vida.

sábado, 24 de dezembro de 2011

NATIVIDADE


Na fragilidade suprema
Em que miséria e carne tenra se unem
Na terra
Nasceu o soberano que, supremo,
É em eternidade o coração
De todas as aflições.
Nasceu o soberano que diante de todas as aflições
De que se fez coração
Há de ampará-las, amá-las e protegê-las

Sem morte que Os separe.
Nasceu o Soberano.
Coração Supremo.
Encarnou-se em dívidas humanas.
A Miséria se fez divina.
E a Misericórdia, em cores de Miséria,
Fez-se Eterna.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

IRRIGADEIRA


Dia triste de pôr lágrimas sinceras.
Dia de uma solenidade morta.
Cheiro insistente de velas.
Lembrança do velar, alistamento mortal.
Mulheres que já foram belas.
O ultimato em transe da espera.
Cadeiras que se esvaziam do bem e do mal.
Irrigadeira.
Manhã e tarde fundidas em ânsias de se abrirem portas.
Maleita itinerário ente.
Ausentes escarradeiras.
Amanhã foi escrito.
Irrigadeira.
Não se fala doente.
Ilusão em que acredito.
Pátria amada – salva-te a ti.
Bola pra frente.
Assim o povo geme o que em mim pressente.
Sempre-vivas no batente.
Zombaria que não me ri.
Eu alheia comportada inerte.
Alojando-me em poeira.
Sou a Fulana de que falam.
Abstenção permanente.
Ausência sempre má.
Mas sempre – ausente.

Acostumo-me a ver o precipício
dos olhos de sangue que naufragam quentes.
Estou sempre à beira.
Não insisto, nem empurro.
Não me veem os olhos na corrente.

Que fluidos são esses tão caídos de galhos?
São olheiras.
Vide escarradeira.
Aliás vou juntando o restolho
da irrigadeira.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

PRINCÍPIO DA BETERRABA


Acumulo braços e pernas
Que não são meus – e penso:
- Ai quem me dera.
O mundo não me dá escolha
senão experimentá-lo
falsamente por crer nele
sempre novo.

Em primórdios de mim
queria pouco e muito não queria
- Desprezava o que me feria as sensações.
Mas hoje, desprezo minhas sensações.
Desprezo-as. O mundo não me dá escolha.
Aprendi que devo ter crenças e certezas.
Que eu colha,
- Misérrima!
Sabores amargos que preciso saber.

sábado, 17 de dezembro de 2011

BEATA


Beata, beata.
Balbucio alegria.
Boto por poros confrades.
Bebo bálsamo do bom.
O dia é que me diz – a vida invade!

Um dia a alegria se salva.
Transfigura torpor em saudade.
Mas em verdade.
Ainda que beata.
Mesmo que – o coração se ponha em gozo
e bata bata de felicidade
a vida pouco custa – a estada é barata.

E o que é barato – um dia – mata.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

ENTARDECER


“A saudade no meu peito.”
Ponho a mão no peito e me lembro dela.
O peito avermelhado se acredita
e transtorna a face, que se toma da mesma cor.
É certo que nisso se grita.
Vai anoitecendo e se olha para o luar
enfraquecido. (Instantaneamente esquecido).
Mas o vermelho crepuscular é crível.
A mão no peito é inevitável.
A hora de pôr a mão no peito que se faz vermelho
é inalienável.

A saudade que se faz para a mão se pôr no peito
ordena que nela creiamos.
Eu creio.
Absorvo a hora da renúncia em comprimir-me o seio.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

DE CHORAR


Chorar é impregnar-se do alheio.
Choro na violência com que não me vejo.
Choro pela vileza do que vem de fora.
Choro em silêncio - destruo meus momentos
em fazer-me ausente de propósito e a contento
porque o choro é sem potência
o impacto da perda é o que em mim chora.
Choro a percepção universal do que machuca.
Choro, choro como nunca.
Choro de baixar a cabeça!
O choro é sem nobreza em essência
porque mostra a nudez que a vida esconde
em resposta à verdade que está longe.

Como o canto de uma vida que é avessa.